segunda-feira, julho 16, 2007

Torre do Tombo em peso…


A outra margem…


sábado, julho 14, 2007

Senilidade…

…Quanto mais os homens acedem à senilidade, tanto mais ganham em semelhança com a puerícia ; e, por fim, emigram como crianças, sem tédio da vida, sem consciência da morte…

Erasmo
[Elogio da loucura]

quinta-feira, julho 12, 2007

Auto-Retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia
[Poesia Completa Publicações Dom Quixote 1999]

Portagem para a outra margem…


quarta-feira, julho 11, 2007

Tribuna


terça-feira, julho 10, 2007

As crinas do vento

o vento: música ou murmúrio da árvore.
Encosta a obsessão à parede branca dos quintais.
Vento de mar? E jovem leva a nuvem.
Os sinos de bronze, o cimo das searas:
viver é brusco, tão incerto.
E a minha mão, desabituada de sentir que toca
e é gesto
e me deixa possuir,
a minha mão quer a janela aberta. O vento não tem,
não, não tem
crinas.
Nem as costas luzidias de cavalo ou égua.
Áspero,
vidro partido espetado na terra.
Os dentes de uma serra,
espaço de repouso e cume que agride.
Pôr a mão em tanto
e sem respirar
quando parecia que era tarde e apenas
hora de dormir?


João Camilo
[A Ambição Sublime]

segunda-feira, julho 09, 2007

Dedos razão das coisas

os longos corredores que dos teus dedos sobem

ao labirinto entrelaçado em tuas veias

levam destas coisas a mais ténue superfície

e espalham pelo sangue o ar que elas transpiram

vou pelos teus dedos levadiça ponte

à repetida página do corpo

é lá que assentam as raízes do que vemos solto

a vaguear por sobre a terra e dentro das palavras

abre a tua mão onde a certeza faz o ninho

entre os teus dedos corre uma quadriga desvairada

que outras rédeas não permite além da própria sombra

leves são os dias ágeis as promessas

sem ruído a vida escorre assim pelas paredes

e é pelos teus dedos que se contam coisas como estas

in A herança de Hölderlin 1978

domingo, julho 08, 2007

Praia


Oito horas…


sábado, julho 07, 2007

Colectânea

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

***** ***** ******

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

[Luís de Camões]

Desamparado…


Acreditando no alvorecer...


Babel…


Obscuridade iluminada…


sexta-feira, julho 06, 2007

Quando partimos e acenamos junto ao rio

quando respiramos o perfume dos campos em flor
na outra margem

o dia amanhece e nenhum baixio
nenhum barco e nenhuma jangada
não vagueiam pela água
não movem nenhuns montes
não separam nenhumas águas
não escurecem o dia
e nenhuns animais dão companhia
noutro lugar

para lá ou para cima e para baixo
para longe daqui
entrar na água ela leva-nos
quando nadamos e mergulhamos
seguindo peixes que nos conduzem
para lá para cima ou para baixo

Barqueiro e tu rio
aproximai-vos
agarrai-me
deixai-me ir para o outro lado
o bilhete
o preço
pago pela palavra
por uma palavra
pago
à letra

[Eva Christina Zeller]

segunda-feira, julho 02, 2007

O Futuro

Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de estandardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Anti burgueses
- Solidamente anti burgueses,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.
Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários

[Reinaldo Ferreira]

domingo, julho 01, 2007

Um verso vem

Um verso vem. Calculo o peso da neblina
que envolve o seu teor, o preso ritmo
da esfera em movimento: cerro o olhar na alma tensa
que ao longo do percurso mais ensina. O verso
vem por si em si da imagem que vier
no imaginar do corpo em sua ascese leve, peso
de uma estrutura fina ao seu redor.

Um verso vem. O olhar na alma mais se inclina.


[Luís Adriano Carlos]

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

Mario Quintana - A Cor do Invisível

sábado, junho 30, 2007

Livros soltos...


sexta-feira, junho 29, 2007

País do meio-dia

Atravessado pelo zumbido de um único ruído de carros
e pela música infinda de uma estação de rádio
o vazio do meio-dia

A cidade uma configuração constituída
por rede de aço e estruturas de betão

Atrás das gruas brilha
a água da bacia portuária
indolente em todas as cores de óleo usado

As ruas varridas
pelo sol recozidas

O apressado asfalto da cidade
um caminho de fuga
para a paisagem pedregosa

Uma língua quente rasga o corpo em suor

As cores são pó
não pó
são pedras



Bruno Wheinhals
in Uma Conversa Passa Pelo Papel

quinta-feira, junho 28, 2007

Quando voltei ao mar de antigamente

Quando voltei ao mar de antigamente,
ao entardecer, no calor das avenidas
buscava os antigos companheiros...

Como lobo desvairado farejava
a sombra quente entre as casas. O cheiro
antigo e vazio empurrava-me para a ampla
praia frente ao mar aberto. Aí descobria
mais clara a amargura e a minha sombra
lunar imóvel sobre o cheiro antigo.


Sandro Penna
[No Brando Rumor da Vida]

Rua das lojas a sul


quarta-feira, junho 27, 2007

Solidão…


Traineira…