sábado, maio 31, 2008

Lampiões


Chegar, partir passar!

quinta-feira, maio 29, 2008

quarta-feira, maio 28, 2008

UM ROSTO

Apenas uma coisa inteiramente transparente
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.

[Nuno Júdice]

terça-feira, maio 27, 2008

poemas - Recados Para Orkut

Canção do Amor Imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atónita...
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

[Mário Quintana]

Dança intemporal

AS AVES

Afluem às margens, jogam
como se a água lhes pertencesse,
pousam no meio dos arbustos
como se tivessem todo o tempo! No

entanto, sabem que as nuvens
vão encher o céu; e que o norte
irá enviar o vento frio que as
há-de arrastar para sul, deixando
atrás de si o silêncio
nos campos. Mas pouco lhes importa
isso, quando se juntam,
e cantam a efemeridade do
instante.

[Nuno Júdice]

segunda-feira, maio 26, 2008

ELEGIA

Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.

[Nuno Júdice]

Gaivota solitária


Sol da tarde


domingo, maio 25, 2008

CubaLibre


Lisboa


Tejo


quarta-feira, maio 21, 2008

Choro!

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
húmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para
o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insónias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

[José Gomes Ferreira]

segunda-feira, maio 19, 2008

Compromisso

Poucas coisas são de valia neste mundo:
a solidão ancestral
alguma delicadíssima tristeza
este gesto contínuo de perder-se
e a tua ausência - esta
- a que me traz uma saudade necessária.

tudo que sou trago comigo
e dou-te.
este poder de consagrar o mundo
torná-lo meu
e pertencê-lo.

esta alegria de saber ser pássaro
um jeito de colorir palavras
e o meu olhar dentro do teu, configurado.

não é muito
mas este é o meu compromisso com a felicidade.

[Dione Barreto]

domingo, maio 18, 2008

Porto Santo





Mar calado

Antonio Miranda Fernandes

Aqui, na paz dos cheiros adocicados do porto,
sobre a nau que dança uma canção lenta e longa,
presa a sua amarra, num mar quase calado,
ouço o chuvisco dos teredos em ebulição no casco.
Vez ou outra uma estrela dourada
se solta do céu e mergulhano horizonte prateado.
Quase posso ouvir a fervura no estremecer das águas.

As estrelas libertas não farão falta ao céu.
Talvez ele nem perceba,
mas aquecerão o mar que sente frio.
Eu, sentindo o oco da minha solidão,
navego com os pensamentos para muito longe,
em busca de carinhos quentes e,
aquecido com afago da amada,
meus olhos se sentem sonolentos
no estofo da maré dos sentimentos em remanso

Raio X

Foco o binóculo sobre o nariz
Entro nos apartamentos
Com olhos de Raio X
Vejo a vida como um cinema
Cenas de amor e drama
Divinas comédias colmeias humanas
De longe as pessoas são todas iguais
De perto conheço esse rosto
De outros carnavais
Quem é que nunca teve um sonho
Quem é que não é sozinho
Quem os seus olhos procuram meu caro vizinho?
[Rita Lee]

Algures pela velha Europa



sábado, maio 17, 2008

Bailarina


quinta-feira, maio 15, 2008

O Vento na Ilha

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me para longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva abre
contra o mar e contra a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me para longe.

Com tua fronte na minha
e na minha a tua boca,
atados os nossos corpos
ao amor que nos abrasa,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e procure
galopando na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
por esta noite apenas
descansarei, meu amor.

[Pablo Neruda] in Os Versos do Capitão

Um olhar triste...


"Um olhar triste, uma falésia, o mar
Uma pessoa, uma tristeza, um sofrimento
Relembrando passados que se possa sonhar
Relembrando passados levados ao esquecimento!"

PALAVRAS...

Engulo palavras pronunciadas.
Mastigo-as depois de degustadas.
São tantas as palavras...
Boas e más.
Umas me comovem,
Outras me entristecem
Gosto das palavras doces...
Tristes são, as de saudades e despedidas.
Atrozes são, as que machucam a vida.
Boas são, as que nos iluminam
e melhoram a nossa auto-estima.
Não engulo,
As que nos subestimam.
Mas, as que me alimentam,
São as que falam de amor!

[Tereza Neumann]

Discurso sobre a paz

Já no final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado engasgado
com uma bela frase oca
escorrega
e desamparado com a boca escancarada
sem fôlego
mostra os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.

[Jacques Prévert]

terça-feira, maio 13, 2008

Für einen Wunderwollen Menschen

Für einen wundervollen Menschen

Für einen wundervollen Menschen
Ich bin froh, dich zu kennendarf dich einen Freund nennen
Das mein Herz dich nie vergisst
Weißt du, wenn du diese Zeilen liest.
Auch wenn wir uns nicht immer sehen
Denk ich, dass wir uns stumm verstehen
Wenn dir mein Gehör abwesend erscheint
Ist es doch niemals böse gemeint.
Wenn Du mich brauchst, rufe mich
Sobald ich
kann, bin ich da für Dich
Denn so sollte Freundschaft sein
Niemand von uns ist jemals allein.
Bist du traurig, tröste ich dich
So gut, wie du es tust für mich
Du bist da, das macht mir Mut
Dich zu kennen, tut mir gut.

Autor desconhecido