Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
[António Gedeão]
quarta-feira, janeiro 18, 2012
quarta-feira, janeiro 11, 2012
Poema da malta das naus
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.
Deu-me o vento defeição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
[António Gedeão]
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.
Deu-me o vento defeição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
[António Gedeão]
sábado, janeiro 07, 2012
domingo, janeiro 01, 2012
sábado, dezembro 03, 2011
segunda-feira, setembro 12, 2011
sexta-feira, setembro 09, 2011
segunda-feira, agosto 29, 2011
sexta-feira, agosto 26, 2011
terça-feira, julho 26, 2011
Limiar
Somos ainda o limiar - espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.
[Albano Martins]
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.
[Albano Martins]
segunda-feira, julho 25, 2011
O discurso do silêncio
Eu falo sobre o silêncio
o da morte, o do medo
o da traição
o de sentir pulsar a natureza
sem os tumores de aço e de betão
Eu falo sobre o silêncio
o que fica se alguém parte
o de deixar ouvir a música
o das fotografias
o noctumo, o sideral
Eu falo sobre o silêncio
que é o magma original
onde regressam as vozes
movimentos, mutações
Eu choro sobre o silêncio
Quando abro a janela
já a morte atravessa a manhã
[José Carlos Teixeira]
o da morte, o do medo
o da traição
o de sentir pulsar a natureza
sem os tumores de aço e de betão
Eu falo sobre o silêncio
o que fica se alguém parte
o de deixar ouvir a música
o das fotografias
o noctumo, o sideral
Eu falo sobre o silêncio
que é o magma original
onde regressam as vozes
movimentos, mutações
Eu choro sobre o silêncio
Quando abro a janela
já a morte atravessa a manhã
[José Carlos Teixeira]
sexta-feira, julho 22, 2011
quinta-feira, julho 21, 2011
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- E uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
[Reinaldo Ferreira]
O mais sensato sou eu,
- E uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
[Reinaldo Ferreira]
domingo, julho 10, 2011
terça-feira, maio 31, 2011
segunda-feira, maio 16, 2011
Um rio de luzes
Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
[Ana Hatherly]
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
[Ana Hatherly]
sábado, maio 07, 2011
domingo, abril 24, 2011
sexta-feira, abril 15, 2011
segunda-feira, abril 11, 2011
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